domingo, 5 de junho de 2011

Entre a norma e o uso: a dupla pronúncia da palavra "algoz"


Na língua portuguesa, seja entre os falantes do Brasil, seja entre os de outros países lusófonos, é pouco frequente a pronúncia de "algoz" com o timbre fechado /ô/. Curiosamente, é essa a única pronúncia prevista pela gramática normativa, que não reconhece o uso com o timbre aberto /ó/, utilizado pela maioria maciça dos falantes. Por que isso ocorre? Uma coisa é certa: nada na língua acontece por acaso. Se hoje usamos uma pronúncia distinta daquela que foi sempre prescrita, tentemos descobrir o porquê...

Etimologia

Classificado como arabismo, o vocábulo algoz tem um étimo que, na verdade, não se origina na língua árabe. O Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa diz que gozz era "o nome de uma tribo turca cujos indivíduos serviam de carrascos no império dos Almóadas" (p. 26). Esse designativo turco tomou a forma al-gozz (unindo-se ao artigo al-) em árabe, idioma por meio do qual o vocábulo ingressou na língua portuguesa no século XIV, com o sentido literal de "carrasco, executor da pena de morte ou de outras penas corporais” e com o sentido figurado de "indivíduo cruel, de maus instintos; atormentador, assassino" conforme Houaiss. O mais remoto registro conhecido da palavra em textos portugueses parece encontrar-se na mais antiga versão dos Quatro Livros dos Diálogos de São Gregório, mas o filólogo José Pedro Machado indica a primeira ocorrência em Crônica de D. Pedro I, de Fernão Lopes (séc. XIV).

Primódios: a distinção entre os timbres intermediários

No árabe, língua em que se originou a palavra, não havia determinação para o uso da pronúncia aberta ou fechada da vogal o. De acordo com o linguista Aldo Bizzocchi, "[...] até hoje muitas línguas [...] não fazem distinção entre os timbres aberto e fechado do e e do o. Em outras, como o árabe, esses timbres intermediários são meras variantes sem valor fonológico das três vogais primárias".
Entretanto, no português arcaico, já havia a distinção entre os timbres aberto e fechado do o. A linguista Rosa Virgínia Mattos e Silva, em O Português Arcaico, observa que o gramático Fernão de Oliveira, no século XVI, realizava essa diferenciação por meio da descrição fonética dos pares mínimos formosos < ω > e formoso < o >. Mas é possível saber qual(is) a(s) pronúncia(s) usada(s) (ou a mais usual) de algoz por ocasião de seu surgimento no português? Eis nossa primeira dificuldade: os registros iniciais encontrados dessa palavra não acentuavam o o com o sinal diacrítico cincunflexo (^). Embora existentes desde 200 a.C., os sinais de acento só foram adotados no português tardiamente, entrando em pleno uso no século XVII. Antenor Nascentes, no artigo "Origem das Notações Léxicas e das Sintáticas", publicado em Estudos Filológicos (1967), diz que "os acentos não aparecem ainda nas primeiras gramáticas portuguesas, como as de João de Barros (1540) e Fernão de Oliveira (1536). O timbre aberto era dado pela duplicação das vogais a, e e o" (pp. 33-36).
Seguindo esse raciocínio, se "o timbre aberto era dado pela duplicação das vogais" e se os registros arcaicos possuem sempre a grafia algozisto é, com um único "o", deduz-se então que a pronúncia da palavra nessa época era fechada (ô).

Séculos a XVIII a XIX: a normalização em Portugal

A hipótese da pronúncia original com timbre fechado encontra reforço nas obras de referência que surgem posteriormente: desde 1712, temos, por meio do Vocabulario Portuguez e Latinode Raphael Bluteau, o primeiro registro conhecido indicando-se a pronúcia (algôz); numa espécie de "VOLP" da época, intitulado Orthographia, ou a arte de escrever, e pronunciar com acerto a língua portuguesa (1734), o ortografista João de Moraes Madureyra Feijó sentencia: "algôz, e algôzes, com semi-tom no o" (p. 179); o franciscano Bernardo de Lima e Mello Bacellar (1783) também registra, em sua obraa palavra com acento circunflexo.
Verbete no Vocabulario Portuguez e Latino (1712)
Em algumas obras de referência dos séculos XIX e XX, identifica-se a ocorrência do termo grafado com acento circunflexo (algôz) e, em outros casos, sem o acento, mas com a devida indicação da pronúncia fechada do timbre, conservando a ortoépia com o fechado (/ô/). Domingos de Azevedo, em sua Grammatica Nacional (1880), não acentua o vocábulo com o sinal diacrítico, mas descreve logo a seguir sua pronúncia: "ál-gôz" (p. 196). A mesma forma ortoépica é seguida em Camões – Um estudo histórico (1906), de António Feliciano de Castilho, que, no entanto, acentua a letra o (p. 78).

Séculos XX e XXI: a gramática normativa no Brasil

O acento circunflexo na palavra desapareceu misteriosamente, mas a tradição se manteve. Napoleão Mendes de Almeida, em seu Dicionário de Questões Vernáculasafirma somente o seguinte no verbete algoz: “no singular e no plural com o fechado” (p. 18). Na Moderna Gramática Portuguesa, Evanildo Bechara segue o mesmo pensamento: "tem timbre fechado o o tônico de: aboio, alforje, algoz [...]" (p. 78). E na Gramática Normativa da Língua PortuguesaRocha Lima (2007) cita "algoz" como o primeiro exemplo das palavras que "apresentam /o/ fechado" (p. 36).
No Dicionário de Dificuldades da Língua PortuguesaCegalla também indica a pronúncia com ô como sendo a única correta, mas não sem comentar e tentar explicar a causa do incorreto uso com o timbre aberto (ó): "é fechado o timbre da vogal o: algoz (ô), algozes (ô). Embora predominante, é incorreta a pronúncia algóz, algózes, com o aberto. Essa prosódia viciosa se deve talvez à influência de outras palavras terminadas em -oz, com o aberto, que são a maioria (cf. atroz, veloz, albatroz, feroz, voz, etc)" (p.36).
Luft, em seu ABC da Língua Culta, também defende exclusivamente o timbre fechado, e por sua vez observa que "a tendência para o o aberto é apenas um fato de regularização (compare com voz, albatroz, foz, noz, etc.)". Na mesma obra, o autor explica que regularização é a "tendência, na linguagem infantil e popular, (isto é, linguagem não policiada), de estender as regras gerais a formas que obedecem a regra especiais, formas ditas 'irregulares'..." (p. 404).Tais citações comprovam, praticamente, a unanimidade sobre a questão entre os autores da gramática normativa.
Porém, quanto à acentuação, nenhum dos autores supracitados, cujas obras foram publicadas em meados do século XX, indicam a escrita da palavra com acento; e é estranho verificar que Cândido de Oliveira, em seu Dicionário Gramatical (edição única de 1967), prescreva algoz sem acento ("pronunciar com 'ô' fechado"), ao mesmo tempo em que diga que "o plural é algôzes, acentuado".
Popular comentarista de questões relativas à normalização gramatical em vigor no Brasil, Pasquale Cipro Neto, no CD-ROM Pasquale Explica, admite a existência da pronúncia com o aberto, mas não o endossa, ratificando apenas aquilo que é previsto pela gramática normativa: "Você conhece alguém que pronuncie algoz (ô)? Eu não conheço, mas é essa a pronúncia recomendada nos dicionários e nas gramáticas. A palavra algoz aparece assim, com esse 'o' fechado. (...) Duro é ter coragem de dizer 'algoz' (ô); a tendência do uso efetivo da língua é que esse 'o' seja aberto, algoz (ó). (...) Os dicionários insistem em recomendar a pronúncia fechada, algoz (ô)." Suas afirmações fazem sentido, exceto no que diz respeito aos dicionários (como veremos a seguir).
Dentre os gramáticos, Sacconi talvez seja o único a ter mudado de ideia: em seu Dicionário de Pronúncia Correta (1991), afirma: "ALGOZ, algôz. [...] O plural, algozes, também tem a vogal tônica fechada, ainda que campeie na língua a pronúncia algóz, sem dúvida, influência de feroz" (p. 11). No entanto, a última edição de seu dicionário, lançada em 2010, registra a dupla pronúncia. O motivo? Descobriremos mais adiante.

Século XXI: a dicionarização de algoz com o timbre aberto

O dicionário Caldas Aulete, em sua versão on-line disponível gratuitamente, na contramão das demais gramáticas e outras obras lexicográficas, registra apenas "(al.goz) [ó]", com o timbre aberto, embora, em edições impressas anteriores, apresentasse apenas a pronúncia com o fechado. Além desse dicionário, outras publicações lexicográficas de Portugal também indicam apenas o timbre /ó/: é o caso do Dicionário da Academia de Ciências de Lisboa (com uma única edição lançada em 2001), que traz, no verbete algoz, a transcrição fonética descrevendo a pronúncia com o aberto. Priberam, um dicionário exclusivamente eletrônico concebido em Portugal, registra a dupla pronúncia.
Tal mudança de registro, nesses casos, pode ter como causa o reconhecimento do predomínio da pronúncia realizada, na prática, pela maioria dos falantes (tanto no Brasil quanto em Portugal), hipótese que encontra amparo nas observações da linguista Maria Helena de Moura Neves a esse respeito. Representante da abordagem funcionalista no campo da Linguística, a autora afirma que "o uso pode contrariar as prescrições que a tradição vem repetindo, e o falante [...] terá de conhecer os dois lados da questão: o modo como os manuais normativos dizem que 'deve ser' ou 'não deve ser' e o modo como, realmente, 'é'...". Assim sendo, em Guia de uso do português (2003) a autora observa, no verbete algozque "a pronúncia recomendada em obras normativas é com O fechado, mas prevalece a pronúncia com O aberto, aparentemente por analogia com as demais palavras terminadas em –oz, como albatroz, feroz, veloz" (p. 57).
Na última edição lançada do Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (2009), registra-se o verbete algoz com dupla pronúncia: "Algoz - Ortoépia: ó ou ô". É, provavelmente, o primeiro dicionário a reconhecer e registrar essa duplicidade (Sacconi e Priberam também procederam dessa forma um ano depois). O que se observa, na verdade, é a gradual dicionarização da dupla prosódia da palavra, anos após sua oficialização pelo Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp). Da 1a. (1981) até a 3a. edição (1999), o Volp registrava apenas a forma com o timbre fechado. Finalmente, em sua 4a. edição (2004), passa a constar a dupla pronúncia: "algoz (ó ou ô) s.m.; pl. (ó ou ô)". Talvez resida aqui a razão pela qual Sacconi tenha admitido, posteriormente, a dupla pronúncia: no prefácio da última edição de seu dicionário (2010), lê-se que "apesar de este autor muitas vezes discordar de certas grafias oficiais [...], nesta obra a escrita se apresenta rigorosamente de acordo com a ortografia prescrita pela Academia Brasileira de Letras no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp)".

Lacuna na ortografia: causa da oscilação da pronúncia?

O que quer que tenha provocado a indesejável – para a gramática normativa – oscilação de pronúncia entre os timbres aberto e fechado do o em algoz, seria importante avaliar, nesse caso, o quanto a ausência de um sinal diacrítico (^) pôde ter contribuído para a oscilação de pronúncia do vocábulo.
Embora a ortografia do português possua bases de ordem fonológica, ela representa a pronúncia com alguma aproximação, ou seja, essa representação não é exata. Não se atingiu, pelo menos até o momento (e é provável que nunca se atinja), a exata correspondência entre fonema e grafema desejada pelos falantes. O linguista Mário Perini, em sua Gramática do Português Brasileiro,  diz que "só em poucos casos um falante pode ter dúvidas quanto à pronúncia de uma palavra [...]: a) na pronúncia de e e o tônicos, quando não são marcados por acento nem são parte de um ditongo. Assim, temos pera, com [e], e fera, com [ε]; sopa, com [o] e tropa, com [O]; nesses casos a ortografia não fornece pistas para a distinção [...]. Esses são os casos em que a ortografia não dá indicações suficientes para a pronúncia. É bom notar, aliás, que em geral essas flutuações não denunciam inconsistência da fala, mas antes inadequações da ortografia" (p. 340, grifo nosso).
Eis um ponto crucial para tentarmos compreender o que pode ter provocado, a contragosto dos gramáticos tradicionais, a consagração do timbre não recomendado: a ausência de uma acentuação que marcasse, na língua escrita, a pronúncia desejada para a língua falada, tal como chegou a ser registrada no século XIX e início do século XX. A questão é: quando e por que o acento circunflexo em algoz deixou de ser aplicado?
O que se sabe é que, em 1971, a ortografia em vigor sofreu alteração no que dizia respeito aos acentos diferenciais, especialmente os circunflexos. Em Considerações sobre a fala e a escrita, a linguista Darcília Simões explica que "onde havia oposição de timbre aberto/fechado e o som fechado era marcado pela grafia do circunflexo, este desapareceu, ou seja, deixou de aparecer na escrita. Ex.: zebra (s.) /ê/ & cf. zebra (f. v.) /é/ passou a ser escrito sem qualquer marca gráfica diferenciadora. Anteriormente, o nome do animal (forma substantiva), pronunciado com timbre fechado /ê/, era grafado com circunflexo. [...]"(p. 41). Porém, não é esse o caso de algoz, em que não há uma oposição de timbre entre duas palavras homógrafas, mas apenas a necessidade de indicação da pronúncia. O abandono do acento na palavra se deu, como já constatamos, bem antes desse acordo ortográfico.
Independentemente da causa da supressão da acentuação, o fato é que, sem o acento, a oscilação da pronúncia entre os timbres aberto e fechado pôde facilmente se estabelecer. Convenhamos: se, ao ler a palavra algoz, a maioria dos falantes tende a usar o timbre aberto (ó), a alegação de "pronúncia viciosa" (Cegalla) só faz sentido em relação a uma regra gramatical datada que, na ausência de um acento indicador de timbre (^), não consegue se manter diante da inevitável "regularização" (usando o termo de Luft) de algoz com atroz, albatroz, veloz, feroz, voz, foz, noz, a meu ver, mais do que justificada, nesse caso.

E as gramáticas?

Por não ter sido ainda encontrada uma solução para as várias lacunas da ortografia do português, questões como a oscilação de pronúncia poderão constituir sempre um obstáculo para a consolidação de critérios normativos gramaticais. De qualquer forma, a recente dicionarização da pronúncia do vocábulo algoz com o timbre aberto (/ó/), admitindo-o com dupla prosódia, demonstra o reconhecimento, por parte das equipes lexicógraficas do Volp e de alguns dicionários, de um uso prosódico consolidado pela maioria dos falantes de português, em detrimento daquilo que, até então, era prescrito pela gramática normativa.
É sabido que os chamados dicionários gerais da língua (Houaiss, Aurélio, Caldas Aulete, Michaelis etc) não possuem função realmente normativa – papel que cabe com mais precisão às gramáticas. No entanto, o Volp, na condição de registro oficial das palavras do português brasileiro, legalizou a dupla pronúncia. Resta saber quando (ou se) as gramáticas abonarão também o uso que algumas obras de referência já reconheceram.

Um comentário:

  1. Peraí que eu vou ali consultar o significado de algoz antes de ler esse post! o/

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